quinta-feira, abril 23, 2009

NÁUFRAGO DA UTOPIA

( 120cm x 80cm )

Os anos vão cessando. O meu barco de sonhos vai envelhecendo e enferrujando; começa a ser ingerido pelo tempo... O Sol vai calcinando as letras do meu pergaminho familiar ficando invisível...
A um recanto depara-se o peão do xadrez da vida e o enigma de um diário que, em harmonia, bebem toda a beleza de uma maçã...
O meu barco da utopia naufragou. Suspendo a respiração. O tempo estacou.
Ainda que me torne oculto na minha solidão, não consigo encontrar-me. A irracionalidade persegue-me numa precisão de loucura...
E só, com o corpo sofrido, as veias destemperadas e os olhos de Sal, a minha visão não alcança nada, apenas as minhas pegadas na areia… talvez só o Mar nos seus circuitos das ondas...
Para finalizar exponho as palavras do Grande Al Berto...
Que horas serão dentro do meu corpo?
Que mineral vermelho jorraria se golpeasse uma veia... não sei... não sei...
O que vejo já não se pode cantar...

6 comentários:

Mαğΐα disse...

Marciano Pintor,

Naufragos somos todos nós apartir do instante em que o nascimento nos atira pra fora do mar quente do ventre materno. Comandantes, lemes, velas, casco, âncora... tudo somos por breves instantes mas nunca somos tudo ao mesmo tempo.
Talvez seja a morte que junta as peças todas e nos levará finalmennte para porto seguro...

(Adorei o pergaminho vazio, como que tem uma história por contar...)


Toma lá com pincelada de tinta vermelha no nariz e xiuuuuuuuuu não me maces!

Mαğΐα disse...

Ah, e uma vénia ao grande Al Berto que tanto gosto de ler e sentir!

Mαğΐα disse...

Vim trazer-te isto:

Tenho o olhar preso aos ângulos escuros da casa
tento descobrir um cruzar de linhas misteriosas, e
com elas quero construir um templo em forma de ilha
ou de mãos disponíveis para o amor....

na verdade, estou derrubado
sobre a mesa em fórmica suja duma taberna verde,
não sei onde
procuro as aves recolhidas na tontura da noite
embriagado entrelaço os dedos
possuo os insectos duros como unhas dilacerando
os rostos brancos das casas abandonadas, à beira mar...

dizem que ao possuir tudo isto
poderia ter sido um homem feliz, que tem por defeito
interrogar-se acerca da melancolia das mãos....
...esta memória lâmina incansável

um cigarro
outro cigarro vai certamente acalmar-me
....que sei eu sobre as tempestades do sangue?
E da água?
no fundo, só amo o lodo escondido das ilhas...

amanheço dolorosamente, escrevo aquilo que posso
estou imóvel, a luz atravessa-me como um sismo
hoje, vou correr à velocidade da minha solidão


Al Berto

Anónimo disse...

Há-de flutuar uma cidade...

Há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
pensava eu... como seriam felizes as mulheres
à beira mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado

por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos... sem ninguém

e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentado à porta... dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
assim envelheci... acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão

(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no
coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)

um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade


Al Berto

A.Mac
Eu também gostava de ter um barco de sonhos, mas como só e triste me sinto,aguardo melhores tempos, vou passeando de pés descalços na praia sentindo o frio da areia,olhando o infinito do mar e o céu azul que tanto me fascina.
Gala

Miguel Videira disse...

Ui!!! Grande Arnaldo Macedo! Desta vez, superaste-te. Na escrita do poema, entenda-se...
Muito bom, mesmo! Abandona a pintura e dedicate à escrita. Terias mais sucesso!

Abraço

PS: Não te esqueças que o mal de uns é o bem de outros... ;)

ams disse...

Ausência

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

Vinícius de Moraes