quinta-feira, novembro 11, 2010

Desfolhar do Calendário

(50cm x 40cm)

Muda-se mais um dia como o esvoaçar de um vestido.

Uma maçã, em queda suave, arrasta o elástico do cabelo azul do céu, ao som do bater das asas das nuvens, enquanto aguarda pelo desalinho dos lençóis.

A maçã não tem qualquer intenção de voltar a ver a sombra no xadrez; deseja o escuro da página onde impera o silêncio e onde poderá estar a sós, contigo, a contar as estrelas e a saborear a noite...

3 comentários:

Bia disse...

E o céu azul quer ser "despenteado", por isso deixa que a Maçã arraste o elástico do cabelo. Assim fica a nu um céu estrelado, cheio de pontinhos que parecem marcar o caminho a percorrer. As nuvens, essas, quedaram-se num mutismo adocicado pelo bater dos lençóis brancos que as cobrem. É que estão prestes a deixar escorregar as gotas grossas que tombam sobre os corpos que vagueiam pelas ruas sem rumo...ao sabor da brisa.

ams disse...

INSTANTE

Que faria eu sem este mundo sem rosto sem perguntas
Onde o ser só dura um instante e onde cada instante
Transborda para o vazio o esquecimento de ter existido
Sem esta onda onde por fim
Corpo e sombra juntos se anulam
Que faria eu sem este silêncio poço fundo de murmúrios
Curvando-se a pedir socorro pedir amor
Sem este céu posto de pé
Sobre o pó do seu lastro

Que faria eu eu faria como ontem e como hoje
Olhando para a minha janela vendo se não estou sozinho
A errar e a mudar distante de toda a vida
preso num espaço incontrolável
Sem voz no meio das vozes
Que se fecham comigo.

Samuel Beckett

E mais não digo... passe bem!

ams disse...

Um mundo

É um sonho ou talvez só uma pausa
na penumbra. Esta massa obscura
que ela revolve nas águas são estrelas.
Entre aromas e cores, um barco de calcário
prossegue uma viagem imóvel num jardim.
Vejo a brancura entre os astros e os ramos.
Dir-se-ia que o ser respira e se deslumbra
e que tudo ascende sob um sopro silencioso.
Nenhum sentido mas os signos amam-se
e o brilho e o rumor formam um mundo.


António Ramos Rosa

Acabei de ler e lembrei-me deste quadro... do teu Desfolhar do Calendário!