segunda-feira, janeiro 09, 2012

Estro

(80cm x 60cm)


Surgiste um dia. Apareceste do nada, de início um vulto que aos poucos que foi materializando. Irradias uma luz que faz brotar os pincéis no jardim de areia. Dás à maçã a sombra que ela procura no mar dos sonhos. Soltas o lençol que te encobre, cedendo o lugar ao estro das cores e das formas, que se criam em mim.
“Quem és tu?”, pergunto.
“Ninguém”, murmuras.

domingo, outubro 30, 2011

3º Toque

(80cm x 60 cm)

A ocasião assim o exigia. Mirando de alto a baixo, o espelho reflete uma paleta engalanada. Perscruta-se minuciosamente: os pigmentos estão secos, nó windsor na gravata... Um nervoso miudinho percorre-a. Aguarda uma chamada que abrirá o portão das jornadas a percorrer. Sabe que é um passo para o desconhecido. Ignora para onde a leva – talvez do nada para lugar algum. A luz azul que envolve o seu corpo é um enigma que sufoca. Olha para o telefone que continua mudo. Sente o sonho no leve esvoaçar das maçãs. Os pincéis germinam em solo fértil. Estremece... o telefone toca três vezes. Está na hora!!!

segunda-feira, agosto 22, 2011

[Polis]semia



De volta à Polis. À invicta. A Maçã convida para uma orgia de tintas e palavras. Observo. Sou um espectador. Da paleta escorregam cores irreais. O pincel conduz as minhas mãos que se entregam à tela. Calados, perplexos, hipnotizados, os meus olhos dançam acompanhando o ritmo atordoante. Será amor, ódio, raiva, alegria, tristeza, medo? Serão homens, mulheres crianças, astros, animais, cidades, natureza, vento, mar, sonhos? ...
Será real ou surreal? Mas, afinal, o que é real? E o surreal?

quarta-feira, julho 06, 2011

À Bolina (sur)Real

terça-feira, maio 24, 2011

Entre as Tintas e as Palavras



"Eu acho que se se é surrealista, não é porque se pinta uma ave, ou um porco de pernas para o ar. É-se surrealista porque se é surrealista!"

Mário Cesariny

terça-feira, maio 03, 2011

11/7


(120 cm x 100 cm)

Como um peregrino vacilante ou como um insecto ziguezagueante, sem percurso lógico, liberto sobre a tela o pincel que, impregnado de tintas aveludadíssimas, me conduz à criação da maçã. Não dou ao momento calmaria. Mando flutuar as cadeiras, penso nos elementos, paradigmas estéticos, que me rodeiam e que me levam ao xadrez. Todos dias por lá caminho. A rainha que me viu crescer, estende as suas raízes e ergue os seus braços à mitologia existencialista de slogans sagrados. Do rasgão, o Futuro espia o Presente…

segunda-feira, abril 04, 2011

Adão e Eva

(80cm x 60 cm)

A noite está a chegar tingida de um amarelo enigmático... O rosto lânguido de Adão é uma montanha que recebe todo o calor da planície curvilínea de Eva. A mesa do xadrez está posta. A Ampulheta, em queda, cronometra o tempo adormecido. Neste jardim, pleno de profanação de profecias, uma árvore estica o braço, oferecendo a Maçã. Alheio às dádivas do Éden, o barco dos sonhos continua a navegar na senda das estrelas...

domingo, março 13, 2011

Surrealidade

(80cm x 60 cm)

Ouço um rasgo no céu que ecoa no meu pensamento. "Quem está aí?", indago. Uma força empurra-me para fora de mim. De quem é este corpo que tenta libertar-se do caixilho onde o tentaram emoldurar? Sou eu? Belisco-me, sinto-me.
Avisto as linhas do xadrez que me indicam o caminho. O meu braço, longo e distendido, uma extensão de mim, tenta em esforço alcançar a maçã. Eu sei que ela será minha. Ela também o sabe. “Deixa-me surrealizar o sonho”, peço-lhe. “Surrealiza-me”, responde-me.


segunda-feira, fevereiro 21, 2011

Aeternum

(80cm x 60 cm)

No imo do desassossego, tive um sonho.
Sonhei.
Sonhei que existe outro xadrez para além das nuvens,
para onde o relógio, carregando o tempo que falta, se mudou.
Sonhei.
Sonhei que estava nas escadas rolantes que se movem,
para cima,
para cima,
para cima,
céleres.
Sonhei.
Sonhei que ouvia anjos que cantavam um hino.
Sonhei.
Sonhei que tinha acordado.
Sonhei que era de novo criança.
Sonhei que me baloiçava para lá das nuvens.
Sonhei.
Sonhei que a vida é um sonho.
A realidade é o que está para além das nuvens.

domingo, fevereiro 13, 2011

À La Carte


(80 cm x 60 cm)

Condenada à morte! Ah, vil sentença pronunciada numa sala sombria! Desde então convivo com esse pensamento, paralisada pela sua presença, arqueada sob seu peso! Um calafrio percorreu a minha pele. Será agora? No céu batiam as últimas horas do dia.
Coragem diante da morte, dizem-me. Perguntemos-lhe o que ela é. Saibamos o que ela quer connosco, esmiucemo-la por todos os lados, perscrutemos o enigma e olhemo-la de frente.
De cima do palanque, exibem-me a uma multidão rejubilante, que incita e aplaude a condenação. Despem-me do meu pudor. Olho-os a todos de frente, aos que, depois de me terem saboreado, me condenam. Os algozes banqueteiam-se. Assistem de camarote ao espectáculo, empanturrando-se do xadrez da vida.
Mas, eu sei que há um Homem, um sonhador, absorvido em descobrir a essência em prol da arte, para quem a Maçã foi a fantasia que o aprisionou, e por quem ele se deixou aprisionar.

sexta-feira, fevereiro 11, 2011

Surrealizar o Sonho



A Noite deixou cair a cortina. O sonho já dorme. Deitado na companhia de uns lençóis repletos de silêncio, as estrelas azuis fixam os seus olhos em mim. Falo com o Mundo, mas só ouço o bater do Mar no casco do meu Barco como um sussurro hipnotizante das Maçãs. Surrealiza-me o Sonho...

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

Surrealizar o sonho

domingo, janeiro 16, 2011

Epílogo

(80 cm x 60 cm)

Ao bater da hora do silêncio, o jardim de cores de uma paleta chega, finalmente, ao seu epílogo.

Reclama por um pedaço de céu azul, tendo como testemunha um deslumbrante raio de sol. Em harmonia com as páginas do calendário de uma maçã sai triunfalmente de cena. Na sua magistral despedida derrama uns salpicos de tinta, em ebulição.

Junto ao xadrez, o espelho de água, indiferente, continua o seu compasso de dança.

terça-feira, janeiro 11, 2011

Estocada

(55cm x 65 cm)

Em plena arena, uma luz cita e abeira-se dos meus pensamentos cravando-lhes uns ferros curtos. A maçã, aturdida, atreve-se a fazer uma pega de caras. O touro encampana-se, levanta a cabeça e desafia a maçã. Atraído pelo fruto despedaça a capa de linho celeste dando-lhe uma estocada. Ferida de morte na lide, a maçã esvai-se em seiva que alimenta os meus pincéis.

quarta-feira, dezembro 22, 2010

Paredes Meias com a Maçã

domingo, dezembro 12, 2010

A Maçã entre o Homem e o Cávado



"A Maçã entre o Homem e o Cávado"
25 de Novembro - 13 de Dezembro 2010
Amares

quinta-feira, novembro 11, 2010

Desfolhar do Calendário

(50cm x 40cm)

Muda-se mais um dia como o esvoaçar de um vestido.

Uma maçã, em queda suave, arrasta o elástico do cabelo azul do céu, ao som do bater das asas das nuvens, enquanto aguarda pelo desalinho dos lençóis.

A maçã não tem qualquer intenção de voltar a ver a sombra no xadrez; deseja o escuro da página onde impera o silêncio e onde poderá estar a sós, contigo, a contar as estrelas e a saborear a noite...

sábado, novembro 06, 2010

A Maçã entre o Homem e o Cávado


domingo, outubro 31, 2010

Antroponáutica

(80cm x 60cm)

As horas perderam-se no tempo. Ouço a voz do mar que fala ao meu coração. Dos meus olhos deslizam pedras de sal. O barco de sonhos está ferrugento, carcomido, esburacado, roído como as minhas unhas… e eu envelheço com ele. À esquerda, avisto uma bússola dourada que norteia as minhas utopias.
Pressinto uma sombra que me envolve. Conduzida pelo vento, a Realidade entra no meu interior como uma treva. Com o seu braço onde bombeia vida, agarra-me a mão numa tentativa de me resgatar das minhas navegações.
A maré vai subir… e este barco vai voltar a navegar…

quarta-feira, outubro 06, 2010

Janela com Vista sobre a Maçã

(80cm x 60cm)

Espreito pela janela secreta da minha casa de sonhos.
Uma luz alaranjada beija-me os olhos, convidando-me para o despertar.
O relógio invisível está parado. As árvores estão imóveis.
As folhas apanharam o bilhete do Outono e emigraram para outras paragens.
Tu és uma maçã; eu sou uma maçã.
Estamos suspensos por molas, pairando sobre uma taciturna melancolia.
Ainda que troquemos pensamentos e sentimentos, não nos conseguimos soltar da corda que nos prende.
Acredito que podemos ser um peão, que podemos mover-nos neste jogo...

segunda-feira, setembro 27, 2010

Oração II

(70 cm x 50 cm)

A Firma Oração Origami, Lda., não registada, de capital surreal, tem o prazer de informar que abriu as portas do calendário num dia escuro e desértico. Mais informa que, no acto solene da sua inauguração, esteve presente o Exmo. Sr. Pastor Patapudo, contando ainda com a presença de muitas almas desesperadas.

Oremos!

Do oriente surge uma mão que aperta um fio de contas… Curiosos, dois peixes origámicos perscrutam o doce aroma que exala. Das profundezas do tabuleiro rasgam-se as vestes terrenas na avidez de saboreá-la. Ah, vil pensamento! Ah, cobiça desmedida! Ah, inveja despudorada! Pai, traz até mim esta maçã!

Oremos!

sexta-feira, setembro 17, 2010

A Boa Vontade

(80cm x 60cm)

Enquanto o azul do céu esfrega os seus cascos no corpo das árvores, a maçã é trespassada pelo pincel, que tal como a seta de um Cupido, penetrou bem no fundo da sua essência.
Do seu interior jorra um fluído deleitoso que muitos cobiçam.
Naquele instante, eu acreditei que a Boa Vontade, com as suas mãos enormes, pudesse aparar o suco. Porém, este esquiva-se a deixar-se agarrar, escapando por entre os dedos.
Tomba desamparado no deserto árido de um tabuleiro de xadrez que, como um vampiro ávido de sangue, se alimenta das suas utopias.

Nota: Inspirado no texto de Mário Cesariny, "Vida e Milagres de Pápárikáss Bastardo do Imperador", in "Manual de Prestidigitação"

sexta-feira, setembro 10, 2010

À Espera do Sucesso

(80cm x 60cm)

Vivo num mundo repleto de maçãs que me cercam, perseguem, guiam, orientam e apontam o caminho a seguir. No meio de tantas há uma que eu ambiciono. Como um boneco articulado, encetei uma caminhada obsessiva no seu encalço que me conduz por trajectos que me foram traçados.
Atravessei a aridez do deserto que me extenuou, enfraqueceu, estropiou, sugou as minhas forças, na ânsia de alcançar a mão que me acenava com o mapa da Maçã.
Então, entrego-me a uma letargia e, despojado de tudo, rendo-me à Espera do Sucesso.

Nota: "À Espera do Sucesso" foi inspirado na obra do Henrique Pousão, "Esperando o Sucesso" (1882)

quinta-feira, setembro 02, 2010

"Ab Alma Mater Ad Delirium Malum"

segunda-feira, julho 19, 2010

Cartografia de um Sonho

(120 cm x 100 cm)

O meu barco de sonhos, carcomido pelas tempestades que se abateram ao longo dos anos, levou-me de volta às origens. Das suas fendas vejo a mão amarela do tempo que, misturada com os cabelos azuis de um céu único, dá mote à minha bandeira.
Viajo no meu interior, numa paisagem que me é familiar. Calcorreio a rua axadrezada que me transporta do passado ao presente. Tudo permanece imutável. A humidade do tempo agarra-se ao coração, que dá corpo a estas pedras.
A luz da maçã acompanha o itinerário. Sinto o sangue a bombear as minhas veias, que se enchem de vida. Que fogo é este que devora a beleza?

quinta-feira, julho 15, 2010

Ao Ritmo da Maçã

Ao Ritmo da Maçã

Exposição de Pintura de Arnaldo Macedo

Conservatório de Música de Felgueiras

1 de Junho 10 de Julho de 2010

sábado, julho 03, 2010

Ad Domum

(120 cm x 100 cm)

Da minha paleta, que outrora foi mais límpida, vaza um lodo de cores.
Deixando um rasto de poeira, lobos com dentes de ferro, espiam o instante para devorar o que ainda resta. Solta-se um trilho de sangue encarnado que envolve a maçã que grita de dor, suplicando ajuda, enquanto faz cálculos geométricos precipitando uma queda adormecida.
Indiferente à agonia, o amarelo da minha bandeira permanece erigido no azul do céu. E, na quietude do tabuleiro de xadrez, a rainha espera o momento para ser de novo lançada no jogo enquanto o pincel corteja a paleta numa dança a três tempos.

sábado, maio 29, 2010

Xeque-mate

(50cm x 40cm)


A linha do horizonte dita o fim do asfalto do xadrez.
Sou uma peça do tabuleiro.
Tentei fugir à jogada da maçã, ataquei, recuei, mas acabei sempre por me deparar com ela. Em cada momento foi, lentamente, degustada. Jogo estranho este… deu-me a ilusão de conhecer as regras do jogo, mas sempre foi a maçã quem decidiu o meu caminho. Fez xeque-mate ao jogo da vida.

terça-feira, abril 20, 2010

A espera da Crisálida

(120 cm x 100 cm)

O som seco do metrónomo do relógio aumenta o ritmo do compasso do tempo. Um formigueiro percorre-me o esqueleto. O sangue que corre nas veias abrasa-me. Sente-se uma refrigeração do céu crepuscular. O tempo cavalga de nuvem em nuvem… a noite está a chegar.
Um teatro de sombras percorre o peão do xadrez da vida. Ao cimo, o portão da metamorfose edifica-se. Da caixa do correio, à espera do meu bilhete de ida, sobrevoam os peixes que me lançam a chave.
Abalei as profecias dos que, sibilamente, projectaram a voz. Estilhacei a redoma que envolvia a maçã. Destruí as muralhas do desejo. E, então, fez-se luz: a chave que recebi era o sonho que me aguarda e a maçã, o adubo certo para germinar a minha partida.

domingo, março 28, 2010

Requiem ao silêncio

(50cm x 40cm)

O sol ébrio deita-se num profundo manto azul escuro. É então, num silêncio esmagador, que abrindo as cortinas ao meu pensamento, escrevo.
A pena da vida, num vai e vem de desejos e fantasias, sacia-se e devora o corpo de um tinteiro, que não é mais que uma maçã.
Cerro as pálpebras. A adrenalina faz-me vibrar os músculos. A carne sensibiliza-se; ganha alimento, sinto um fogo a germinar. Deitada e despudorada, como uma amante, está a folha de pergaminho, rasgada pelo tempo. Uma gota de suor resinosa flui sem arreios numa construção geométrica do orgasmo...
Apuro os meus sentidos. Lá fora o silêncio fortifica-se...

sexta-feira, março 12, 2010

Semana da Poesia - Vizela

(90cm x 70cm)

Ana de Sá
(poetisa vizelense, 1823-1899)

(90cm x 70cm)


Bráulio Caldas
(poeta vizelense, 1861 - 1905)

Comemorações do Dia Mundial da Poesia, de 15 a 21 de Março de 2010, em Vizela, dedicado a Bráulio Caldas e Ana de Sá.


quarta-feira, março 03, 2010

Cicio do Outono

(50 cm x 60 cm)

O Outono cai como uma cascata de água. Do céu pendem uns cortinados em tons escurecidos. O sol espreita timidamente através dos cabelos longos do tempo, enquanto que, do corpo de uma árvore, se solta o sussurro da solidão.
Contudo, o comboio das insónias espera pelos incrédulos amantes, que buscam o refúgio do deitar de uma maçã.

terça-feira, fevereiro 23, 2010

O Tango do Marionetista

(50cm x 40cm)

Sinto-me um objecto animado, manipulado por correntes invisíveis de um marionetista, oculto por uma tela. Sou comandado à distância por alguém que se diz dono de mim e das minhas horas.
E se ele se esquecesse de mim e me oferecesse mais um pouco de vida? Ah!, como gostaria de descobrir a entrada desse marionetista, para ter uma conversa com ele.
Libertaria todo o meu fogo exterminador, soltaria labaredas flamejantes da minha língua, recriminaria a sua dança exótica com a maçã.
Quem disse que a noite não pode namorar o dia?

terça-feira, fevereiro 02, 2010

Sonho de Uma Maçã Surreal



SONHO DE UMA MAÇÃ SURREAL
Fevereiro e Março, 2010
Foyer da Casa das Artes - V. N. Famalicão


No mutismo da noite, aguardo um sonho inquieto, sísmico, impregnado de avidez das paixões. Entrego-me à imagem...Tudo começa com uma tela em branco. A paleta vomita lama de tinta; o pincel está embriagado. Vai-se dando cor por vezes ao fundo, outras vezes alguns traços apenas. Depois, bem… depois, acontece uma história surrealista: são palavras que se envolvem com as cores na geometria do orgasmo de uma maçã…
Mas, afinal, o que é real ou surreal?

sábado, janeiro 23, 2010

ARGONAUTA DO DESEJO

( 120cm x 100cm )

Numerando o tempo, caminho na companhia dos meus paradoxais momentos.
Atrai-me o som de um tilintar de copos que se despedaçam enquanto desvio o meu olhar para umas ondas do mar, que cortam o vento e se beijam.
Da varanda vislumbro o farol que mira o Instante Perfeito, em suspensão, indicando-lhe a passagem. Ao longe, as nuvens dos sonhos vão passando e largando as suas penas que ao esvoaçar vão desenhando e escrevendo os sonhos que povoam a minha existência e que ditam o meu diário.
Não há ondas iguais, não há nuvens iguais, não há maçãs iguais… porém, eu continuo a minha caminhada, enchendo as folhas do meu livro. Sigo a luz do farol.

sábado, janeiro 09, 2010

SONHO DESNUDADO

(91 cm x 47 cm)
Assim que a noite sente o cheiro das estrelas, uma luz de luar procura o seu tesouro no pensamento, confidenciando o seu sonho. A cortina da noite cede à tentação da corrente de um relógio que teima em não parar, deixando a descoberto a frágil nudez do devaneio.
No horizonte, flutuando mansamente numa galáxia de águas calmas, vislumbra-se uma nau que se aproxima. O mastro de dois pincéis apontam a Zénite, enquanto os ventos alísios empurram o suave perfume da Maçã.
Então, ao som desse aroma, despe-se das suas utopias impregnadas da cor do desejo: o seu sonho está desnudado.

domingo, dezembro 06, 2009

[E]vidência

(91 cm x 47 cm)

Olho para a maçã como ela, em tom de desafio, olha para mim. Há um envolvimento mútuo, apenas perturbado pela ondulação de um véu que, por vezes, teima em ocultar o fruto. Sinto-me observado por um olhar que me asfixia... As muletas sustentam a visão falsamente sibilina dos que condenam, criticam, apoiam, animam…
Pressinto uma liberdade… intuo uma leveza que transporta o meu ser… sou como a gaivota que luta quando o vento joga com o mar. Esperei pelo momento em que o manto se abriu. Alcancei a maçã que embora aqui tão perto, parecia tão longe. Sinto a brisa de ar fresco que mantém o véu a flutuar. O relógio está distraído. Aproveito o momento: enquanto a cortina está aberta, quero saborear a maçã.

terça-feira, novembro 10, 2009

O Ovo da Maçã 21:11

( 50cm x 40cm )

Momentos houve em que cheguei a sentir os dedos fortes do ar a apertar a minha ventilação. Sentia-me inerte. Hirto. Contrariando o destino, os alicerces das minhas veias conseguiram suportar esse estrangular.
Pouco a pouco, muito lentamente, foram-se soltando os dedos que me sufocavam. Abri a porta ao momento. Senti o calor que me invadia de novo e fazia o meu sangue ranger e correr nas minhas
veias.
Acordei. Olhei para o calendário. Eram 21:11. Com o corpo entorpecido, percorria-me uma sensação extasiada de ter voltado a sair do ventre da mulher que me pariu.

quinta-feira, outubro 29, 2009

Orgasmo de uma jovem maçã virgem

( 90cm x 60cm )

Como marés rígidas e desavergonhadas,
Na cadência compassada da ondulação,
Dois corpos entrelaçados conspiram,
Na desordem de uns lençóis.
Atraída pelo calor emanado,
A jovem maçã virgem estremece.
Sente a lambidela de um pincel
Arrepia-se
Entrega-se
Dá-se ao inesperado reflexo
Altamente carregado de sensualidade.
Sente cravar na pele a boca
Sente no seu interior o fogo.
Vibra.
A um ritmo alucinante
As sensações vão sucedendo
Aumentando…
Aumentando…
E quando já nada parecia abrandar
Palpita uma explosão
Jorra um leito de sémen
Extenuados, os dois corpos deixam de conspirar.
Flutuam, agora, na mansidão pudica de um mar.

segunda-feira, outubro 12, 2009

IN COSTRUZIONE

( 120cm x 100cm )
Começamos por fazer uns traços, talvez uns simples riscos, que vão ganhando forma.
Uma manta em tom de azul claro ia-nos envolvendo, enquanto nos acomodávamos nas nuvens como almofadas macias se tratasse.
Toda esta composição era alimentada por palavras invisíveis, mas intuídas...
Por detrás da janela, sou como um pequeno cesto com furos, esvaziado de perfume, já que a distância me impede de tocar-te.
E sobre o tabuleiro joga-se o cavalete. Como um vulcão salto de quadrado em quadrado tentando encontrar o meu traço. Esporadicamente, por cada posição alcançada, fico deslumbrado. E continuo a avançar, sobrevoando as fendas que, como armadilhas, me tentam deter.
Porém, eu persisto no meu objectivo…quero penetrar no teu campo… quero sentir o aroma da maçã!!!

terça-feira, setembro 22, 2009

DÁDIVA LIBIDINOSA

( 120cm x 100cm )


Há algo mais no universo para além da carícia de um lençol azul... No tremor da seda, o abraço de umas mãos envolvem uma maçã recheada de desejo, na ânsia de ser lambida pela paixão... E, etapa a etapa, as correntes do tempo abrem as jaulas e, como uma ejaculação, solta-se o inesperado... Reflexos altamente carregados de sensualidade voam como peixes de olhos de pássaro.É domingo. A tinta está a esgotar-se. Sem se apagar, uma lanterna em chama na minha caixa de cores, ilumina-me. Solto um grito na imensidão do pensamento... Louvo o infinito, o meu bom sonho, a minha almofada macia…

E eis que surge na tela um leito libidinosamente perfumado pela dádiva de uma maçã.

segunda-feira, agosto 10, 2009

LUDUS SCAENICI

(120cm x 100cm)

Largando um rasto branco, os dias passam por mim a toda velocidade. A cada dia que cessa, o tempo endurece o seu porte atlético, e eu permaneço mais tempo estático na minha insónia. Bebo a agonia do cansaço. O tabuleiro da vida flutua. Os pássaros incolores cantam a dor e gritam palavras de socorro; os submarinos, que passam por baixo do assento, navegam em terra; os aviões não conseguem voar… A energia está a esgotar-se. Os meus cabelos despenteados estão brancos. O que se passa com as minhas veias? Sofro de uma doença doente…As cortinas estão prestes a fechar. Sou um toxicodependente! Estou viciado em sniffar a vida. As raízes continuam a crescer e a prender-me a este palco. Os peixes observam-me no céu. A maçã está mesmo no termo, mas ainda podem chover balões de imaginação. E eu vou ouvindo as palavras dos portões…

"A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios... Por isso, cante, ria, dance, chore e viva intensamente cada momento de sua vida, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos..." Charlie Chaplin